inovação em saúde

Inovação na atenção primária em saúde

Moderadora: Beatriz Mello
Debatedores: Erno Harzheim, Gonzalo Vecina, Carmino A. de Souza e Marcelo Pedroso

Prioridades e mitigação de problemas

Entre lideranças do poder público, executivos e docentes, a questão da inovação na atenção primária em saúde foi o alvo das discussões, trazendo à baila desdobramentos relacionados às políticas públicas, financiamentos, diretrizes regulatórias entre outras nuances

Com moderação de Beatriz Melo, executiva da área farmacêutica, o último painel do primeiro dia de debates trouxe a pauta “Inovação na atenção primária em saúde”. Entre os participantes da discussão estiveram o professor Marcelo Pedroso, livre docente do departamento de administração da faculdade de economia, administração e contabilidade da Universidade de São Paulo (USP); Erno Harzheim, gestor de atenção primária à saúde na rede de clínicas Salute; Gonzalo Vecina, professor da faculdade de saúde pública da USP e; Carmino A. de Souza, secretário municipal de saúde de Campinas e diretor adjunto de relações institucionais e parlamentares do conselho nacional de secretarias municipais de saúde.

Dando início à exposição, o professor Pedroso apresentou um recorte sobre a gestão da inovação que focaliza a atenção primária em saúde no Brasil. No estudo que considera as cadeias de valor, foram explorados cinco elementos: restrições e diretrizes regulatórias; jornada do paciente; financiamento e intermediação financeira; políticas públicas de inovação e; os fluxos assistenciais. Com ênfase na integração dos sistemas público e privado e na questão da universalidade de acesso à saúde, o professor coloca como porta de entrada a atenção primária e observa as dificuldades do cenário brasileiro no que concerne à integração dos sistemas público e suplementar. “É justamente por essa dificuldade, que existe no Brasil um potencial muito grande para promover esta integração”, arrematou.

Sobre as questões do financiamento público, Pedroso as classificou como insuficientes e inadequadas e exibiu dados de 2019 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a população estimada do Brasil (210.147.125) e também, sobre a performance de atendimento do sistema privado que perfazia apenas 22,4% da população brasileira recebendo 58,1% do financiamento. “Esses números falam em uma certa inequidade quando nos referimos ao financiamento em saúde”, pontua.

Após às colocações do professor, foi a vez de Beatriz, mediadora da discussão, lançar a seguinte questão aos debatedores: onde temos maior oportunidade de inovação olhando para os cinco elementos apresentados pelo professor entre financiamento, assistência, políticas públicas, jornada do paciente e regulação? O professor Vecina foi o primeiro a fazer suas ponderações, dizendo que as oportunidades estão nos cinco eixos citados e que a questão é ter dinheiro para executar em um momento crítico como o que vivemos. “Acho que é o momento de repensarmos as políticas públicas, pois beiramos um desastre [sobre a pandemia de Covid-19]. Em um primeiro momento, a atenção primária parou por falta de equipamentos de proteção individual (EPIs)”, conta Vecina, apontando ainda para um cenário de problemas vindouros onde não atingiremos a imunidade de rebanho e para a continuidade da pandemia por provavelmente todo o ano de 2021. “Nesse meio tempo, vamos depender da existência de vacinas e as vacinas, quando chegarem, não vacinarão todos os que deveriam”, conclui.

Ao tomar a palavra, Souza, secretário municipal de saúde de Campinas no cargo há oito anos, disse que ao assumir suas funções na secretaria ficou extremamente decepcionado ao perceber as condições da rede de atenção primária de sua cidade. “Esperava encontrar ao menos o mínimo de organização, mas as condições eram bastante inadequadas”, reporta. Com o decorrer do tempo, foi criado um novo tipo de padrão para atenção primária da região com a recuperação de toda a rede de atendimento. “Fizemos mais de 20 novas unidades de saúde e reformamos mais de 40. Ao total, temos hoje 66 unidades”, declarou o secretário.

Para isso, uma parceria foi estabelecida com o governo do estado dentro do programa Saúde em Ação, permitindo a captação de recursos externos provindos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a informatização e recuperação da rede. “Contamos atualmente com 85% de informatização da rede onde os agentes comunitários trabalham com tablets para a comunicação com os usuários do município”, expôs.

Como gestor de atenção primária à saúde, Harzheim foi resoluto ao dizer que o melhor momento para mudanças é durante uma crise. “Se nós não mudamos durante uma crise [como essa de Covid-19], não mudaremos depois”, afirmou. Muitos outros países devem aproveitar esse momento para realizar transformações importantes em seus modelos de governança e gestão, inclusive em suas estruturas legais para, desta forma, avançarem para o século XXI, observa Harzheim dentro de um breve panorama global. “Vejo que ainda temos uma discussão muito presa no Brasil, numa era pré-internet. Um apreço exagerado por alguns conceitos e normas constitucionais que não podem adentrar ao século XXI, porque não vão nos entregar o sistema de saúde que precisamos”, avaliou.

Em complemento à análise anterior, o gestor fez considerações sobre a saúde suplementar apontando seu aspecto paquidérmico no que tange à dificuldade de movimento frente às mudanças e também, diante da revolução em serviços de saúde vivida na atualidade. Para Harzheim, a prioridade está em tratar com maior ênfase a trajetória clínica dos pacientes, mas para tal, é preciso começar a mudar questões ligadas ao financiamento, não necessariamente em volume, mas em seu formato. “O SUS não consegue mudar sua metodologia para entrar em conformidade com o que é internacionalmente discutido, pontos como agregar valor e medir resultados para financiar”, colocou, atentando para a grande dificuldade de superar normas criadas na década de 1990 e reformadas em caráter pudico sem que haja transformações efetivas.  

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